Oii pessoas,
Sejam bem vindas ao nosso Saúde e Maternidade Democrática: um espaço de capilarização do conhecimento. Espero que vocês estejam bem.
Hoje vamos falar de um assunto em alta e, eu diria, polêmico: MELATONINA.
É indiscutível que tem havido um movimento aumentado em torno dos suplementos vitamínicos, o que eleva o bombardeio de propaganda sobre produtos que prometem emagrecimento rápido, cura da insônia, fortalecimento dos óssos, melhora na memória e vários outros "milagres" do mundo moderno. Mas será que essas promessas podem realmente ser cumpridas? O que a ciência diz em relação a isso? Hoje vamos entender o que a ciência diz sobre a melatonina, e se mulheres grávidas podem fazer uso.
O que é Melatonina?
Melatonina é um hormônio produzido naturalmente pela Glândula Pineal, no cérebro. É conhecido como "hormônio do sono", está relacionado a regulação do ciclo circadiano, o ritmo biológico de controle de sono e vigília¹.
Atualmente existem inúmeros estudos que avaliam a melatonina em diversos cenários, uma vez que essa substância também participa de alguns processos relacionados ao sistema imune, apresentando potencial ação antioxidante. Entretanto, atualmente no Brasil, a melatonina não é vendida como protocolo terapêutico, apenas como suplemento alimentar na dosagem máxima diária de 0,21mg, tendo segurança comprovada apenas em pessoas maiores de 19 anos (1).
Como a melatonina tem sido estudada na gravidez?
A melatonina tem sido estudada em diversos cenários da gravidez, por ser um hormônio com fatores associados a neuroproteção e antioxidação celular, podendo ajudar na proteção da placenta e na regulação de ritmos biológicos. Contudo, para que alguma substância seja recomendada, ainda que como suplementação, é necessário uma variedade de tipos de estudos, que avaliam mais que a eficácia, mas principalmente a segurança, no caso da gravidez, segurança da mulher e do feto. Sem essa variedade de estudos não é possível indicar e nem recomendar a indicação de forma segura. O que se sabe sobre a melatonina na gravidez até o momento:
1- A molécula da melatonina atravessa a barreira transplacentária
Trata-se de uma molécula pequena que atravessa a placenta sem sofrer modificações, chegando até o feto integralmente. Ainda não existem estudos suficientes que comprovem segurança à exposição da melatonina exógena (via suplementação) para o feto e seu desenvolvimento (2), mas sabemos que eles estão expostos a melatonina endógena (produzida pelo cérebro da mãe) durante toda a gestação (3).
2- Melatonina sendo estudada como tratamento para pré-eclampsia
Pré-eclampsia é uma condição de saúde potencialmente grave que acomete mulheres com pressão alta ou predisposição para pressão alta, acima das 20 semanas de gestação, e que se não prevenida ou tratada adequadamente pode evoluir para eclampsia que pode levar a óbito materno e fetal. O estudo com a melatonina como terapia adjuvante na pré-eclampsia precoce tem trazido resultados in vitro interessantes, porém ainda sendo necessário outros aprofundamentos científicos para que passe a ser uma terapêutica adotada (4).
3- Lacuna de pesquisas na temática
Apesar do uso muito difundido e comum entre a população geral, ainda faltam ensaios clínicos randomizados e controlados que avaliem especificamente a eficácia da melatonina para tratamento de qualquer condição de saúde, e principalmente em públicos específicos, como gestantes e portadores de condições crônicas de saúde (5).
E a pergunta do artigo: Grávida pode tomar melatonina?
A respostá é simples: NÃO!
Se não tem estudo suficiente, por mais que existam algumas evidências que apontem para a segurança nessa população, não podemos dizer que existe comprovação científica nessa afirmação. O Ministério da Saúde traz em sua publicação sobre a substância de que desaconselha o uso da melatonina por crianças, gestantes e mulheres que estão amamentando (1).
E como estimular o sono e melhorar os sintomas de insônia durante a gestação?
Como falei lá no começo do artigo, o nosso sono ele é um resultado do nosso ritmo circadiano, que nada mais é que o nosso relógio biológico que, dentro das 24 horas do dia, libera hormônios correspondentes as ações a serem executadas ao longo do dia, e esse entendimento acontece com a luz e a escuridão. A luz faz o cérebro entender que precisa estar ativo, e a escuridão faz o cérebro produzir melatonina para favorecer o sono. Então como estimular a produção de melatonina naturalmente, com ações nossas ao longo do dia?
- Estipular uma rotina de horários para dormir e acordar, e assim condicionar o corpo a esses horários;
- Reduzir a exposição a luzes pelo menos 1 hora antes de pegar no sono, isso inclui exposição a telas e ao estímulo externo;
- Cuidar com os cochilos ao longo do dia: a gestante sente necessidade de cochilar ao longo do dia, ter uma rotina com o tempo desse cochilo pode ajudar a não ficar sem sono a noite devido a um cochilo muito longo de dia;
- A pratica de atividade física é recomendada desde que não aja contraindicação médica, portanto se exercitar ajuda na regulação hormonal, ajudando no sono;
- Quando o sono se perde devido aos deconfortos naturais da gestação - como a vontade de fazer xixi de madrugada, o refluxo ou a azia, o bebê agitado e se mexendo na madrugada, sentimento de ansiedade ou desconforto - é necessário tratar a causa para garantir uma melhor qualidade do sono, entretando algumas coisas não tem muita resolução, explorar posições e recursos de posicionamento podem melhorar o desconforto (teremos um artigo sobre formas de reduzir esses desconfortos da gestação em breve!);
- Que tal explorar meditação, musicoterapia e outras medidas de relaxamento que te causam sensação de prazer e recolhimento? Isso pode ser positivo a nível hormonal para a mãe e pro bebê.

Quando a insônia precisa ser tema da consulta de pré-natal?
Com certeza se a mulher estiver:
-
tendo insônia praticamente todas as noites;
-
demorando frequentemente muito tempo para conseguir dormir;
-
acordando repetidamente e não conseguindo voltar a dormir;
-
ficando extremamente sonolenta durante o dia;
-
apresentando ansiedade importante;
-
apresentando sintomas depressivos;
-
roncando muito ou tendo pausas respiratórias;
-
tendo sensação desagradável nas pernas à noite;
-
utilizando álcool ou outras drogas, medicamentos ou suplementos para conseguir dormir.
Sinais como esses merecem atenção e podem evitar desfechos obstétricos problemáticos para a mãe ou bebê.
É isso pessoas, deixo aqui embaixo as referências que utilizei pra construção desse artigo. Uma alegria escrever pra vocês! Um beijo família <3
REREFÊNCIAS
(1) Brasil, Ministério da Saúde. Melatonina. 2026. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/m/melatonina.
(2) Lucas Sagrillo-Fagundes et al. Melatonin in Pregnancy: Effects on Brain Development and CNS Programming Disorders. 2016. Disponível em: https://www.google.com/url?sa=E&q=https%3A%2F%2Fdoi.org%2F10.2174%2F1381612822666151214104624.
(3) Tamura et al., Melatonin and pregnancy in the human. 2008. Disponível em: https://www.google.com/url?sa=E&q=https%3A%2F%2Fdoi.org%2F10.1016%2Fj.reprotox.2008.03.005.
(4) Sebastian R Hobson et al. Melatonin improves endothelial function in vitro and prolongs pregnancy in women with early-onset preeclampsia. 2018. Disponível em: https://www.google.com/url?sa=E&q=https%3A%2F%2Fdoi.org%2F10.1111%2Fjpi.12508.
(5) Tya Vine et al. Melatonin use during pregnancy and lactation: A scoping review of human studies, 2022. Disponível em: https://www.google.com/url?sa=E&q=https%3A%2F%2Fdoi.org%2F10.1590%2F1516-4446-2021-2156.
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